terça-feira, 9 de janeiro de 2018

As roupas e o discurso político














(texto escrito em Abril de 2012)


“Vou procurar responder a todas as questões, mas se me esquecer de alguma vocês
digam: Oh Jorge, está a esquecer-se da minha pergunta!”. O Jorge é o Chefe de
Gabinete do Secretário de Estado da Administração Local e Reforma Administrativa e
representou o Governo na sessão de esclarecimento sobre a proposta de lei que
extinguirá cerca de 1400 freguesias, em Évora, no dia 28 de Março. O público a que se
dirigia, e onde eu me encontrava, era constituído por autarcas de todo o Alentejo.
Naquele momento, tive a impressão que o Jorge vestia calções de ganga e uma
camisola bem divertida, que éramos velhos amigos e nos encontrávamos ali para
beber umas cervejitas e trocar umas palavras de ocasião. Mas o Jorge estava ali para
nos esclarecer sobre um assunto muito sério, que determinará o poder local nos
lugares mais pequenos do Alentejo.

Quando nos foi explicado que as aldeias e vilas não fecham pelo facto de ficarem
sem Junta de Freguesia e que os edifícios não saem dos sítios onde estão, fiquei com a
sensação que tinha trazido o bibe da primária e que a minha expressão seria a de uma
menina espantada com a descoberta sobre os edifícios que, apesar de terem sapatas,
não andam. Curiosamente, a mesma explicação foi dada por Rui Rio dias depois,
quando comentava, em televisão, a manifestação contra a extinção de freguesias, que
aconteceu no dia 31 de Março, em Lisboa. Rui Rio declarou-se enternecido pela
simpatia do povo do campo, gente boa e humilde, bem comportada nos cantares e nos
falares, mas gente que não compreendeu a proposta de lei apresentada pelo Governo.
Explica, então, que os edifícios não vão sair das vilas e das aldeias porque os edifícios
não andam. Mas seremos completamente burros, apesar de simpáticos?!

Rui Rio ficou enternecido porque viu na manifestação não uma afirmação política
mas sim uma afirmação etnográfica. Numa demonstração da sua própria identidade,
as pessoas foram a Lisboa trajadas de caretos, chocalheiros, gigantones, etc. Trajes
populares do Minho ao Algarve. Os ranchos folclóricos, as associações culturais,
recreativas e desportivas estiveram também presentes. Se aplicarmos a metáfora da
roupa, diria que a manifestação falhou nos trajes que escolheu. As danças e cantares
folclóricos e restantes manifestações etnográficas caem noutras esferas da sociedade,
diferentes da esfera política. Por isso não foram entendidos como um verdadeiro
protesto político. Embora tenha ficado visível a vontade colectiva das populações, as
200 mil pessoas que se manifestaram com outra voz e outros trajes apenas
enterneceram os decisores políticos, em vez de os fazer estremecer.

O exemplo político deve vir de cima mas, infelizmente, o politicamente correcto
está longe da actual classe política. É próprio do actor político ensaiar os actos, as
declarações e os comportamentos da sua “persona” pública. É até desejável que o
faça. Mas a bipolaridade dos políticos chega a ser dolorosa. Se estivermos em tempo
de eleições, os candidatos retiram a gravata, arregaçam as mangas, usam boinas e
aproximam-se do povo. Não perdem a oportunidade de aparecer no pequeno ecrã, o
palco mais apetecido de todos, onde prometem representar o povo em todas as
circunstâncias. Imediatamente após o período eleitoral, por vezes na própria noite da
vitória, os vencedores mudam o comportamento. Colocam a gravata, vestem fatos de
marca, invariavelmente azul ou cinzento, usam bandeirinhas de Portugal na lapela,
assumem uma pose de Estado. Trocam as Vespas pelos automóveis de luxo e
verborreiam prepotência e paternalismo, quando não conseguem escapar às câmaras
de televisão. O valor público é esquecido, assim como as promessas ao povo, que
passou a ser um fardo, uma tremenda despesa, um bando de gente preguiçosa e
ignorante que é preciso domesticar.

A ordem doméstica é o oposto da ordem política democrática, pois baseia-se na
resolução das necessidades e não no cumprimento das liberdades. Tem um cariz
puramente económico e ditador. Uma política de trazer por casa é uma política menor.
Tem apenas uma perspectiva, a do governante, que age como se fosse um chefe de
família. O discurso é paternal. Sim, é verdade que o ano 2015 é imediatamente
consequente ao ano 2014. Salazar também resolvia tudo sozinho, mas esses foram
outros tempos. Porém os tempos voltam. Começa a ser importante exigir que a
postura doméstica fique em casa, onde é o seu lugar.

Não admira que o representante do Governo tenha sido tão exageradamente
informal no encontro com os autarcas alentejanos. Uma tentativa de criar uma falsa
proximidade, viciar o diálogo, torná-lo menos político. O nacional porreirismo do tu cá
tu lá esconde uma intenção: anular a capacidade política da plateia, menosprezar a sua
inteligência e experiência, e fazer valer o poder executivo que representa. Aliás, no
discurso de abertura do encontro, o anfitrião António Costa Dieb, presidente da CCDR
Alentejo, vestido com a formalidade que se impunha, esforçou-se por nos convencer
que seria uma sessão de esclarecimento sobre a proposta de lei e não uma discussão
política. Pediu-nos para nos cingirmos apenas às questões técnicas. Resumindo: meus
senhores, a proposta é esta, nós explicamo-la com todo o gosto, mas não a discutimos.

Fomos desobedientes. Cumprindo o papel de mediadores, responsáveis por
inscrever a identidade da freguesia nas esferas políticas de nível superior, a plateia não
perdeu a ÚNICA oportunidade de manifestar a sua posição política. (In)vestidos com o
rigor que merecem as populações que representam, os autarcas defenderam os seus
pontos de vista. Houve unanimidade na plateia, independentemente da cor da
camisola. A extinção de freguesias do interior é INACEITÁVEL porque: (1) põe em causa
o sistema democrático português tal como o conhecemos; (2) põe em causa a
condição de igualdade e representatividade políticas; (3) põe em causa a coesão
nacional; e (4) destrói o serviço público de proximidade.

Em tempos de crise é fundamental a maturidade política. Winston Churchill,
primeiro-ministro do Reino Unido, foi Prémio Nobel de Literatura (1953). Tenho
saudades de um bom discurso.

(escrito sem acordo ortográfico)

Fernanda Cunha
13 de Abril de 2012

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Dos afectos






















Descubro-te amigo
nos ângulos das letras azul BIC
nas palavras escoradas pelo toner
nos pixéis voláteis (porém, persistentes)  
no contraste do fundo branco.
Como lupa da vida.

Tenho-te amigo
em cada momento
que rimos ou choramos
para cima de uma mousse
dividida à colherada.
Batata frita com tudo!

Vejo-te amigo
nos filmes que lemos
nos livros que abraçamos
nos caminhos que trilhamos
em busca dos fantasmas úteis
que cosemos à linha e colamos a quente.

Não fossem Gutenberg, os Lumière
Marcel Bich, Tim Berners-Lee
os filósofos, os cineastas, os escritores
o Sr. Duarte e os demais
seríamos amigos na mesma?
Obviamente!



Fernanda Cunha/25Outubro2017

sábado, 7 de outubro de 2017

Insónia























(ler devagar, se a noite for longa)

Adentra-se a noite
através da linfa.
Alcalina e salgada,
contorna os ossos,
trespassa os músculos,
preenche o miocárdio.
Não trouxe imunidade,
antes pelo contrário.

Visita os órgãos,
um a um.
Confirma a vitalidade,
obriga à intimidade.
Demora-se no cérebro,
em cada electrão.
Percorre-lhe as metáforas,
não faz excepção.

Nega o sono,
a lucidez.
Nem todos os gatos são pardos.
Estremeço.
Procuro posição.
Não adianta.
Estão desalinhados os tempos
e as distâncias.

Em desespero, fujo
para o antes de mim.
Estou além-horizonte,
em lugar nenhum.
Falham-me os sentidos,
abandono-me à desordem.
Esvazio-me.
Será isto a paixão?

Tenho a noite dentro de mim.
Não traz respostas 
nem esconde mistérios.
Vejo-me criança
Quero gritar ao mundo
que não tenho a força de Cristo.
Sou apenas um número 
na repartição das finanças. 

Se primitiva é noite,
sem régua nem ponteiros,
derivado é o dia,
onde o mundo é revolução,
medição, mediação.
Aguardo a madrugada de Sofia,
para tornar a habitar
a «substância do tempo».  



Fernanda Cunha/Outubro2017

imagem: «Tide up in Sangatte» , de Kasra Emampour



terça-feira, 12 de setembro de 2017

A lágrima

















Reúnem-se os cientistas, os economistas, os políticos e os pastores.
Correm as televisões, animam-se as populações.
É a poluição! Um mal-entendido! Erro de legislação! Castigo divino!

Tudo é urgência na parafernália dos jornais,
onde gritam as gordas parangonas, em cuidado design:
«A Terra-azul é agora vermelho-Marte. Falta água por toda a parte!».

O Ártico está sem norte e os rios são leitos de morte.
O planeta perdeu a cor, o humor, os cavalos-marinhos e os cavalos-vapor.
O mar é agora sal, cárcere do tempo e do cloreto de sódio.

O mundo está pálido, asséptico, bradipéptico, amoral.
Esbraceja o incrédulo, em desespero último:
«Libertem o cloro, o sódio e os seus iões! Não nos tirem as paixões!»

Quem foi que nos roubou, afinal?
Quem nos quer tanto mal?

Diz-se à boca pequena que foi alguém que chorou.
Ninguém viu ou ouviu. Ninguém reparou.
O recato foi total.

Bastou uma lágrima, uma lágrima apenas.
Pequena gota salgada que, por estranho fenómeno higroscópico,
toda a água desviou.

Da Terra nada mais se sabe. 
Marte-Azul é agora o lugar dos amantes e dos poetas,
onde a história recomeça.



FC/Setembro2017

(Ilustração de André Ruivo)





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

BI - Caderno de Identidade





  video de Margarida Cardoso Martins.


Apresentação do meu texto «O Luís Miguel quer ir para o Panteão Nacional», incluído no livro BI - caderno de Identidade. 


Meus senhores, boa tarde.
Agradeço a todos a amabilidade de virem ao nosso encontro e partilhar este final de dia de forma diferente, e sobretudo agradeço aos nossos convidados: Rui Cardoso Martins, Manuel Halpern e Firmino Bernardo, por terem tido a paciência de ler os nossos textos e dizer de vossa justiça. Serei breve na minha intervenção.

Três textos e um prefácio, quatro autores, quatro moradores do mesmo livro. Escritas diferentes, identidades diferentes, propriedade intelectual diferente, número de página diferente. Estou muito bem acompanhada pelos meus vizinhos escritores e beneficio dessa proximidade. Eu e o catalão Iñigo Maçainhas Fuent Volt, que se passeia nos três textos.

Neste livro, habito o lugar do meio, entre o «provar quem sou» e «eu, por ti, me identifico». Moro nas palavras-furtadas deste prédio. Palavras furtadas pelo simples acto de ler. Sou uma leitora que se apropria das palavras e das ideias dos livros que lê. Não sou uma escritora.

Furtar palavras não é fácil. Não há uma fórmula. Mas foi assim, num acto de rebeldia, sem pedir licença, que os filósofos Hannah Arendt, António Marques e Eduardo Lourenço, o historiador Tony Judt, o sociólogo Manuel Castells, o cineasta Jean Luc-Godard, os escritores Mário de Carvalho, Rui Cardoso Martins, Eça de Queiroz, Gonçalo M Tavares (que me trouxe Eurípedes), Italo Calvino, Lewis Carroll, Miguel Cervantes, José Saramago, Luís de Camões e Fernando Pessoa entraram no meu conto.

Um conto ensaiado ou um ensaio contado ou nem uma coisa nem outra. Um texto pouco obediente às regras da literatura, certamente desobediente às regras da academia científica. A história decorre no Mercado Municipal, mas existe uma tese por detrás da história: a importância da identidade na cidadania.

Quase todas as personagens são fictícias mas beberam do espírito possante das gentes e dos mercados reais, lugares que nos obrigam a estar bem atentos. Vivemos ali a experiência dos cinco sentidos. Ou melhor, dos seis.

A personagem principal é Adelaide, filha de Manuel Espada e neta de João Mau-Tempo, todos personagens fictícias de Levantado do Chão, livro de José Saramago. O tempo passou por Adelaide. Tem agora 62 anos.

O homem-manifestação que aparece na Véspera de Domingo, é real. Veio directamente de Lisboa, da Manifestação de 15 de Setembro de 2012, em busca de ouvintes nas páginas deste conto. O discurso que pronuncia é da sua autoria. Eu limitei-me a ser a sua caneta. Terá agora, sem o saber, alguns leitores. A democracia aprende-se muito devagar, portanto, o que o homem-manifestação disse antes é válido hoje: não deve haver vazios em democracia, não deve mentira em democracia.

Luís Miguel, que dá título ao conto ensaiado, é inspirado em Luís Manuel, personagem real, assíduo do Mercado Municipal da cidade onde vivo. Tanto um como outro manifestam alguma dificuldade na aprendizagem, têm internet, sabem usar o multibanco e fazem contas de cabeça. Estão ambos fora da atitude consumista e da normalização do comportamento, próprios do fenómeno social, mas também não conseguem assumir responsabilidade com a durabilidade do mundo e com a liberdade, próprias do agir político. Luís Manuel também emprestou a Luís Miguel a sua curiosa metafísica, ou seja, a vontade de ir para o Panteão Nacional. A propriedade e a impropriedade de Luís Manuel chamaram-me a atenção. É uma pessoa diferente, mas perfeitamente integrada num lugar que foi sempre capaz de aceitar a diferença. Um lugar distinto, plural. Talvez possamos aprender um pouco com este modo simples mas intenso de viver a proximidade.  

A ideia de escrever sobre a Identidade nasceu precisamente da proximidade. Num dia igual a tantos outros, quando, descontraídos, nós três celebrávamos a amizade com filetes de peixe-galo, feijoada à transmontana, um copo de vinho, sobremesa caseira e uma boa gargalhada. Rui Cardoso Martins brindou-nos com um prefácio à Rui Cardoso Martins. Não há outro igual. Muito obrigada. A editora By The Book deu corpo à nossa ideia. Editou este livro que vos convido a ler, em silêncio e com tempo, quanto mais não seja, para contrariar a insustentável leveza das moscas, dos políticos-mosca e das cidades-mosca, que transformam a nossa vida em facto alternativo. OBG

Abril/2017

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Do contraditório



Inspirada em Fernando Pessoa, eis-me em pleno contraditório, despida de preconceitos e coerência, aceitando o desafio de procurar nos «estados de alma da luz» e nas «atitudes da paisagem», sensações políticas, religiosas e artísticas. Todas aquelas que a luz e a paisagem me exigirem e que variarão consoante as transformações exteriores, pois como afirma o escritor, «a contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente».

Talvez assim, mergulhada no jogo livre dos sentidos, disponível para a vivência estética, consiga realizar a minha humanidade com beleza, elegância e serenidade.


FC/24Julho2017


Nota bibliográfica: Fernando Pessoa, «Do contraditório como terapêutica da libertação».



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Talbot

Quando se juntam bons amigos, o resultado é um CD de elevada qualidade. Se está por aqui, oiça: