quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Dos afectos






















Descubro-te amigo
nos ângulos das letras azul BIC
nas palavras escoradas pelo toner
nos pixéis voláteis (porém, persistentes)  
no contraste do fundo branco.
Como lupa da vida.

Tenho-te amigo
em cada momento
que rimos ou choramos
para cima de uma mousse
dividida à colherada.
Batata frita com tudo!

Vejo-te amigo
nos filmes que lemos
nos livros que abraçamos
nos caminhos que trilhamos
em busca dos fantasmas úteis
que cosemos à linha e colamos a quente.

Não fossem Gutenberg, os Lumière
Marcel Bich, Tim Berners-Lee
os filósofos, os cineastas, os escritores
o Sr. Duarte e os demais
seríamos amigos na mesma?
Obviamente!



Fernanda Cunha/25Outubro2017

sábado, 7 de outubro de 2017

Insónia























(ler devagar, se a noite for longa)

Adentra-se a noite
através da linfa.
Alcalina e salgada,
contorna os ossos,
trespassa os músculos,
preenche o miocárdio.
Não trouxe imunidade,
antes pelo contrário.

Visita os órgãos,
um a um.
Confirma a vitalidade,
obriga à intimidade.
Demora-se no cérebro,
em cada electrão.
Percorre-lhe as metáforas,
não faz excepção.

Nega o sono,
a lucidez.
Nem todos os gatos são pardos.
Estremeço.
Procuro posição.
Não adianta.
Estão desalinhados os tempos
e as distâncias.

Em desespero, fujo
para o antes de mim.
Estou além-horizonte,
em lugar nenhum.
Falham-me os sentidos,
abandono-me à desordem.
Esvazio-me.
Será isto a paixão?

Tenho a noite dentro de mim.
Não traz respostas 
nem esconde mistérios.
Vejo-me criança
Quero gritar ao mundo
que não tenho a força de Cristo.
Sou apenas um número 
na repartição das finanças. 

Se primitiva é noite,
sem régua nem ponteiros,
derivado é o dia,
onde o mundo é revolução,
medição, mediação.
Aguardo a madrugada de Sofia,
para tornar a habitar
a «substância do tempo».  



Fernanda Cunha/Outubro2017

imagem: «Tide up in Sangatte» , de Kasra Emampour



terça-feira, 12 de setembro de 2017

A lágrima

















Reúnem-se os cientistas, os economistas, os políticos e os pastores.
Correm as televisões, animam-se as populações.
É a poluição! Um mal-entendido! Erro de legislação! Castigo divino!

Tudo é urgência na parafernália dos jornais,
onde gritam as gordas parangonas, em cuidado design:
«A Terra-azul é agora vermelho-Marte. Falta água por toda a parte!».

O Ártico está sem norte e os rios são leitos de morte.
O planeta perdeu a cor, o humor, os cavalos-marinhos e os cavalos-vapor.
O mar é agora sal, cárcere do tempo e do cloreto de sódio.

O mundo está pálido, asséptico, bradipéptico, amoral.
Esbraceja o incrédulo, em desespero último:
«Libertem o cloro, o sódio e os seus iões! Não nos tirem as paixões!»

Quem foi que nos roubou, afinal?
Quem nos quer tanto mal?

Diz-se à boca pequena que foi alguém que chorou.
Ninguém viu ou ouviu. Ninguém reparou.
O recato foi total.

Bastou uma lágrima, uma lágrima apenas.
Pequena gota salgada que, por estranho fenómeno higroscópico,
toda a água desviou.

Da Terra nada mais se sabe. 
Marte-Azul é agora o lugar dos amantes e dos poetas,
onde a história recomeça.



FC/Setembro2017

(Ilustração de André Ruivo)





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

BI - Caderno de Identidade





  video de Margarida Cardoso Martins.


Apresentação do meu texto «O Luís Miguel quer ir para o Panteão Nacional», incluído no livro BI - caderno de Identidade. 


Meus senhores, boa tarde.
Agradeço a todos a amabilidade de virem ao nosso encontro e partilhar este final de dia de forma diferente, e sobretudo agradeço aos nossos convidados: Rui Cardoso Martins, Manuel Halpern e Firmino Bernardo, por terem tido a paciência de ler os nossos textos e dizer de vossa justiça. Serei breve na minha intervenção.

Três textos e um prefácio, quatro autores, quatro moradores do mesmo livro. Escritas diferentes, identidades diferentes, propriedade intelectual diferente, número de página diferente. Estou muito bem acompanhada pelos meus vizinhos escritores e beneficio dessa proximidade. Eu e o catalão Iñigo Maçainhas Fuent Volt, que se passeia nos três textos.

Neste livro, habito o lugar do meio, entre o «provar quem sou» e «eu, por ti, me identifico». Moro nas palavras-furtadas deste prédio. Palavras furtadas pelo simples acto de ler. Sou uma leitora que se apropria das palavras e das ideias dos livros que lê. Não sou uma escritora.

Furtar palavras não é fácil. Não há uma fórmula. Mas foi assim, num acto de rebeldia, sem pedir licença, que os filósofos Hannah Arendt, António Marques e Eduardo Lourenço, o historiador Tony Judt, o sociólogo Manuel Castells, o cineasta Jean Luc-Godard, os escritores Mário de Carvalho, Rui Cardoso Martins, Eça de Queiroz, Gonçalo M Tavares (que me trouxe Eurípedes), Italo Calvino, Lewis Carroll, Miguel Cervantes, José Saramago, Luís de Camões e Fernando Pessoa entraram no meu conto.

Um conto ensaiado ou um ensaio contado ou nem uma coisa nem outra. Um texto pouco obediente às regras da literatura, certamente desobediente às regras da academia científica. A história decorre no Mercado Municipal, mas existe uma tese por detrás da história: a importância da identidade na cidadania.

Quase todas as personagens são fictícias mas beberam do espírito possante das gentes e dos mercados reais, lugares que nos obrigam a estar bem atentos. Vivemos ali a experiência dos cinco sentidos. Ou melhor, dos seis.

A personagem principal é Adelaide, filha de Manuel Espada e neta de João Mau-Tempo, todos personagens fictícias de Levantado do Chão, livro de José Saramago. O tempo passou por Adelaide. Tem agora 62 anos.

O homem-manifestação que aparece na Véspera de Domingo, é real. Veio directamente de Lisboa, da Manifestação de 15 de Setembro de 2012, em busca de ouvintes nas páginas deste conto. O discurso que pronuncia é da sua autoria. Eu limitei-me a ser a sua caneta. Terá agora, sem o saber, alguns leitores. A democracia aprende-se muito devagar, portanto, o que o homem-manifestação disse antes é válido hoje: não deve haver vazios em democracia, não deve mentira em democracia.

Luís Miguel, que dá título ao conto ensaiado, é inspirado em Luís Manuel, personagem real, assíduo do Mercado Municipal da cidade onde vivo. Tanto um como outro manifestam alguma dificuldade na aprendizagem, têm internet, sabem usar o multibanco e fazem contas de cabeça. Estão ambos fora da atitude consumista e da normalização do comportamento, próprios do fenómeno social, mas também não conseguem assumir responsabilidade com a durabilidade do mundo e com a liberdade, próprias do agir político. Luís Manuel também emprestou a Luís Miguel a sua curiosa metafísica, ou seja, a vontade de ir para o Panteão Nacional. A propriedade e a impropriedade de Luís Manuel chamaram-me a atenção. É uma pessoa diferente, mas perfeitamente integrada num lugar que foi sempre capaz de aceitar a diferença. Um lugar distinto, plural. Talvez possamos aprender um pouco com este modo simples mas intenso de viver a proximidade.  

A ideia de escrever sobre a Identidade nasceu precisamente da proximidade. Num dia igual a tantos outros, quando, descontraídos, nós três celebrávamos a amizade com filetes de peixe-galo, feijoada à transmontana, um copo de vinho, sobremesa caseira e uma boa gargalhada. Rui Cardoso Martins brindou-nos com um prefácio à Rui Cardoso Martins. Não há outro igual. Muito obrigada. A editora By The Book deu corpo à nossa ideia. Editou este livro que vos convido a ler, em silêncio e com tempo, quanto mais não seja, para contrariar a insustentável leveza das moscas, dos políticos-mosca e das cidades-mosca, que transformam a nossa vida em facto alternativo. OBG

Abril/2017

[quem quiser adquirir um exemplar clique aqui ]





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Do contraditório



Inspirada em Fernando Pessoa, eis-me em pleno contraditório, despida de preconceitos e coerência, aceitando o desafio de procurar nos «estados de alma da luz» e nas «atitudes da paisagem», sensações políticas, religiosas e artísticas. Todas aquelas que a luz e a paisagem me exigirem e que variarão consoante as transformações exteriores, pois como afirma o escritor, «a contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente».

Talvez assim, mergulhada no jogo livre dos sentidos, disponível para a vivência estética, consiga realizar a minha humanidade com beleza, elegância e serenidade.


FC/24Julho2017


Nota bibliográfica: Fernando Pessoa, «Do contraditório como terapêutica da libertação».



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Talbot

Quando se juntam bons amigos, o resultado é um CD de elevada qualidade. Se está por aqui, oiça:






sexta-feira, 3 de março de 2017

O Cotovelo











Fronteira entre braço e antebraço, o cotovelo é a capital de vários músculos e ossos. A sua posição estratégica liga a mão ao cérebro, sendo fundamental tanto no Body Pump do Luís Oliveira como no bitoque da Dona Deolinda.

Imaginemo-lo Constantinopla, ponto de encontro entre a Europa e a Ásia, capital de vários impérios e berço da cristandade, até porque há turcos envolvidos. Não esqueçamos, porém, que no mapa-mundi humano, o resto do território tem igual valor, não fosse o corpo que habitamos uma estranha democracia.

Protegida pelo cacau em percentagem arrojada, a cidade de Constantino, ou simplesmente cotovelo, apenas receia a faixa 9, que se impõe ao som de Feel so close, de Calvin Harris, e da voz do mestre Luís Oliveira: «E sobe e "dece"»... E a malta insiste e resiste. 

Somos lápis de cor? Não! Somos músculo, cérebro e mão. Provamo-lo noutra faixa de outro exercício, entre o chão e o step, ao batermos as palmas em contratempo, anulando os tempos fracos da música e do músculo. Tap, tap, toc, toc, bi-toque, bi-toque. O mestre sorri, discretamente.

Nem dor de cotovelo nem raivinhas nem bifanas de Torres Vedras. Bitoque! Mas bitoque, só mesmo o da Dona Deolinda (de Garvão, claro). O ovo vem da capoeira junto à linha do comboio que vai para um Sul quase paralelo ao de Constantinopla. Sempre se conheceram galinhas por ali.

A batata veio da Cordilheira dos Andes, em tempos muito idos. Hoje em dia, sobrepõe-se a todas as faixas e lidera os pratos portugueses. Se lhe dessem oportunidade, a faixa 9 não lhe escaparia. Quase tão redonda como o epicôndilo, a batata não sofre de esquisitices e transmuta-se em palito, repousando por pouco tempo no prato preparado pela Dona Deolinda. O bife é um mistério. Ninguém dá por ele mas, depois, ninguém o esquece.

Se sorte tivermos, por entre bebes e comes ouvir-se-á o cante entre amigos. O ponto, o alto e o coro, a reforçar o forte sabor a Alentejo. E desengane-se o mais convencido, porque se o cotovelo padecer de algum mal, perceberá o pobre coitado que terá igual dificuldade a levantar quer o garfo da Dona Deolinda quer a barra de pesos do Luís Oliveira.  


FC/Março2017